sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Entre as muralhas do inferno


     A lua estava pálida como nunca estivera, bem no centro do único pedaço de céu limpo em meio ao maciço de nuvens negras que se espraiavam até o horizonte em todas as direções, como se a Terra naquele dia estivesse envolta numa grande cortina, e aquele astro, como o olho de um gigantesco ciclope, fosse a única parte visível de um ser vivo a espreitar a cidade deserta. Na verdade, deserta não era a palavra mais acertada, já que havia cerca de uma dúzia de cães famintos a farejar e a esgueirar-se envoltos pela escuridão da noite, silenciosos e assustados, a procura de algo que lhes saciasse a fome. Havia, também, roedores, gatos, e todos os tipos de seres que poderiam se aproveitar dos restos deixados pelos habitantes daquele local. Mas até mesmo estes rareavam naqueles tempos.
    Entre as muralhas da cidade, ervas-daninhas cresciam um tanto sufocadas pela lama podre ocasionada pela chuva que caíra por mais de uma semana e cessara há poucos dias.
   A noite avançava e uma sombra humana se arrastava na escuridão empunhando uma espada curta. O suor escorria-lhe a testa, apesar do frio trazido por uma brisa intermitente; um ar gelado e soturno, mórbido. Já havia se despojado de suas vestes de cavaleiro; a sua capa já havia, há muito, se transformado em um cobertor improvisado, enrolada de forma a servir, também, de alforje para o transporte dos poucos mantimentos que trazia consigo. Os olhos atentos e a respiração ofegante denunciavam o medo experimentado por aquele homem.
   Era agora um cavaleiro que forçosamente se tornara andarilho, o último de seu regimento dizimado em batalha. Seu cavalo morrera e sua carne fora involuntariamente compartilhada com a matilha de cães que patrulhavam a cidade. Mas não eram os cães que ele temia. Era aquilo que nem mesmo estes podiam ver ou mesmo farejar, mas que sentiam tal como ele; uma presença sobrenatural que parecia apoderar-se do lugar abandonado, uma força tão negra quanto aquelas nuvens sobre sua cabeça.
   O homem andava a passos cuidadosos, evitando qualquer ruído. Mas havia a sensação de que, apesar do silêncio quase palpável, ele era observado; e essa sensação já o acompanhava antes mesmo de adentrar os portões da cidade, desde que vira, sobre o lombo de seu animal, a silhueta de um grande campanário erguendo-se sobre uma colina atrás da mata de pinheiros.
   Quando a noite jogou sobre a cidade a sua cortina negra, ele já não tinha a esperança de encontrar qualquer alimento. Desde que botara os pés ali, tivera apenas a carne de sua montaria, que morrera no terceiro ou quarto passo que dera após atravessar as muralhas, como se o pobre animal houvesse cumprido a sua tarefa de trazer àquele lugar sombrio mais uma alma a ser arrebatada.
   Não havia mais esperanças de encontrar alguma coisa além de lama, musgo e sombras. A morte parecia ter tomado conta de cada canto encharcado da cidade; mas, apesar disso, ninguém, nem mesmo um cadáver, fora avistado desde que chegara ali, pouco antes do anoitecer.
   Tudo que se ouvia era o tamborilar de seu coração num ritmo desenfreado, a respiração que teimosamente se destacava em meio ao silêncio absoluto, e os passos cuidadosos na terra encharcada. Nem mesmo os cães, sabidamente a caminhar a uma certa distância, atreviam-se a quebrar o ensurdecedor silêncio.
   Tudo que ele queria era sair daquele lugar amaldiçoado, mas não lhe era possível; alguma força inumana havia tornado a cidade um labirinto e por mais que se esforçasse, não conseguia encontrar uma saída. Estranhamente o local por onde adentrara as muralhas, esperançoso em encontrar algum tipo de conforto ou o olhar compadecido de algum morador, não estava mais onde o deixara. A cidade parecia estar cercada pelo Mal, e este Mal o fizera se perder diante de um medo que lhe revirava o estômago. Estava preso entre as muralhas frias e repletas de musgo de uma cidade abandonada.
   Então, um fio gelado percorreu-lhe a espinha e ao longe, provavelmente de fora das muralhas, um lobo quebrou o agonizante silêncio. Os cães não se atreveram a acompanhá-lo em seu clamor. Sua espada foi segurada com tamanha força que os dedos pareceram incrustar-se em seu cabo.
   — Talvez isso acabe num piscar de olhos — ele pensou. Estava certo de que a Morte montara vigília naquele local.
   Seus passos vacilaram diante do uivo pesaroso do animal.
   A espada o precedia, refletindo os últimos raios de luz emanados pela lua que aos poucos era abraçada pelas nuvens negras. E antes que tudo se perdesse na escuridão total, ele pôde enxergar, ou pensou ter enxergado, um vulto saltar de um telhado ao outro à sua frente, numa fração de segundos.
   As pupilas completamente dilatadas, a respiração fraca e descompassada e o tremor que tomava conta de todo o seu corpo, fazendo a espada oscilar diante de seus olhos... tudo isso anunciava-lhe o fim.
   Sentiu algo tocar-lhe levemente as costas, talvez no mesmo instante em que vira o vulto, ou mesmo, alguns segundos depois — ele não sabia dizer — Virou-se trêmulo e sem forças. O grito de medo foi sufocado, e provavelmente ninguém poderia ter ouvido algo além de um sussurro. Empunhava sua espada, e as pernas o abandonaram. Foi ao chão ainda com uma das mãos a segurar firmemente naquela que lhe era a única esperança de salvação; o braço completamente esticado, uma extensão de sua arma; a outra mão estava apoiada na lama fria e escorregadia na qual havia caído, enquanto uma criança se afastava, correndo em meio à escuridão.
    Teve medo de se levantar, mas precisava encontrar a menininha que o assustara. Pôs-se de pé, ainda mais trêmulo do que antes, e caminhou na direção em que ela correra.
    Tentou encontrá-la, mas parecia impossível frente àquele labirinto de construções de pedra e madeira, até que conseguiu, a muito custo, divisar pequeninas pegadas que seguiam bastante espaçadas rente às casas. Ela havia passado por ali.
     Caminhou com a espada ainda em mãos e ouviu o choramingar dos cães em algum beco escuro.
     A criança estava imóvel no meio de uma enorme praça, de costas para o cavaleiro, olhando fixamente para algo que parecia uma espécie de pira construída em volta de um mastro. Alguém fora condenado a arder no meio da cidade, como um grotesco espetáculo, mas que havia se tornado corriqueiro naqueles tempos. Entretanto, naquele momento, apenas o cavaleiro e a garotinha assustada estavam ali, a cerca de quarenta metros do monte de madeira, enquanto pequenos flocos de neve começavam a cair tímidos, indiferentes ao suor frio que escorria pelo rosto daquele homem.
    Ele se aproximou com cuidado e delicadamente chamou pela criança, que se virou com os olhos banhados em lágrimas.
    Era uma menina de grandes olhos verdes e um rosto imaculadamente branco. Os cabelos caíam-lhe sobre os ombros em cascatas de cachos negros; e o vestido que descia até o chão enlameado era apenas um trapo velho que algum dia fora branco. Aparentava não ter mais que oito anos.
    O homem baixou a espada e caminhou devagar em sua direção, com medo de assustá-la.
    Ela o fitava nos olhos e esboçou um tímido sorriso quando ele se abaixou à sua frente, apoiando uma das mãos sobre a espada e oferecendo-lhe a outra. Relutante ela o deu a sua mão, fria como a neve.
    De costas para pira, ela apenas o olhava; e ele lhe disse:
    — Onde estão todos? Seus pais, seus amigos... para onde foram todos eles? — ele disse no mais amável tom que lhe era possível.
    O olhar da menina mudou repentinamente. O medo pareceu apoderar-se de seus pensamentos e ela quis correr, mas ele a segurou.
    — O que aconteceu aqui? — ele insistiu.
    A garotinha, com o braço preso nas mãos fortes do cavaleiro, abaixou os olhos e com um movimento de cabeça apontou para a pira.
    — O que foi? — ele não compreendia.
    O lobo voltou a uivar ao longe.
    As nuvens davam cada vez menos espaço ao brilho da lua e os flocos de neve continuavam a cair levemente, se desmanchando em seus rostos.
    —... d-d-demônio... ela disse numa voz quase inaudível — Eles o condenaram a arder naquela pira.
    O cavaleiro sentiu mais uma vez o frio percorrer-lhe a espinha e revirar-lhe o estômago. Teria o demônio descido à Terra e justamente naquele local? Ele temia a resposta mais do que qualquer outra coisa. Aquele vulto que vira sobre os telhados ainda o assombrava.
    — O demônio? — ele a indagou em tom de exclamação, sentindo que sua voz se perdia em sua respiração descompassada.
    — Sim...
    — Onde foram todos? A cidade está abandonada — ele disse.
    A menina voltou a olhá-lo nos olhos com seu lindo olhar esverdeado e seu delicado rosto extremamente branco, emoldurado por seus macios cabelos negros. Um silêncio se fez entre eles, e então, o vento soprou mais forte, fazendo os flocos de neve bailarem em volta dos dois. Ela cerrou os olhos numa mudança repentina de expressão e disse com uma voz calma, mas carregada:
    — Não posso ser morto com o fogo de vocês, seu imbecil — Agora era a mão da garotinha que segurava o braço daquele homem como uma grande prensa a esmagar-lhe carne e ossos.
    A dor era intensa e o cavaleiro se via impotente diante de uma criança que escancarava um sorriso maligno, de pé a sua frente.
    A outra mão da garotinha apenas pendia rente ao corpo e ela o fitava com olhos vazios e verdes. Estava prestes a perder os sentidos, com a espada em sua mão direita, a qual provavelmente não teria mais utilidade, a não ser a de dar lastro a um único fio de esperança de se ver livre daquele martírio. Então, indiferente à dor, aos sentidos que já o abandonavam, ao sorriso de desdém do demônio que o segurava divertindo-se com a agonia de sua presa, todas as forças do homem foram voltadas a um único golpe, uma reação desesperada frente à morte já iminente. E por um breve instante, antes da lâmina tocar a carne branca daquele fino e poderoso braço, viu uma lágrima descer pelo rosto daquela menininha.
    O braço fora decepado e o sangue jorrava intensamente.

***
    O rosto estava mergulhado numa poça vermelha de lama e sangue e o corpo de uma criança jazia a seu lado. Seus olhos verdes ainda fitavam o nada e a boca semiaberta denunciava a dor que antecedera a morte.
    Ele não podia acreditar em tudo que acontecera.
    Levantar era impossível, pois a dor o consumia a partir dos ossos estilhaçados de seu braço esquerdo e tomava todo o seu corpo, exaurindo suas forças. Pôde apenas se virar com muita dificuldade e ver a lua brilhante no céu limpo e claro, salpicado de estrelas.
   Quis dormir. Apenas isso. Dormir até que o dia amanhecesse.
   A lágrima que escorrera no rosto da criança ainda estava viva em sua mente, assim como o grito de dor que ecoara como uma última blasfêmia do demônio.
   Teria a morte da garotinha selado também a existência do demônio que a possuíra?
   A resposta a esta indagação veio na forma de gargalhadas que pareciam vir de diversas bocas e que se espraiou por todo o local, ressoando em cada canto da cidade encharcada.
   Uma grande sombra se ergueu sobre o telhado de uma casa a alguns metros de distância e se jogou sobre a pira revelando-se numa massa grotesca composta de partes humanas e estranhas criaturas em estado de putrefação; um emaranhado de pele, pêlos, membros, cabeças e olhos. Moveu-se como uma onda de podridão até cerca de vinte metros do homem que já tentava se colocar de pé com a espada em mãos.
    Novamente ajoelhado, tentava reencontrar suas forças, e via a morte diante de seus olhos. Mas desta vez ela não possuía a beleza inebriante de uma criança, mas a aterradora imagem de uma deformidade demoníaca.
    Olhos o observavam, enquanto mãos e pernas se contorciam naquela massa de carnes, e o sangue escorria em meio a todos os corpos.
    Então, as diversas cabeças de homens, mulheres, crianças, velhos, e criaturas demoníacas, se juntaram num grito agudo vindo das entranhas do inferno e os cães começaram lentamente a sair da escuridão com os dentes a mostra e os pêlos das costas eriçados, e o homem se viu rodeado por uma dezena de animais famintos. Ele soube que este era o seu fim.
    A lua brilhava pálida no céu e o lobo ainda uivava na floresta distante.
    O cavaleiro pôde ver os olhos verdes e vazios dos cães enquanto sua carne era dilacerada.


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